Um prego no sapato

e a sua razão de ser

 

O Blog iniciado a 20 de Setembro de 2003


 

 

 

 

 

 

 

 

Que dites vous?... C'est inutile?... Je le sais!

Mais on ne se bat pas dans l'espoir du succès!

Non! non, c'est bien plus beau lorsque c'est inutile!

- Qu'est-ce que c'est que tous ceux-là? - vous êtes mille?

Ah! je vous reconnais, tous me vieux ennemis!

Le Mensonge?

Tiens, tiens! - Ha! ha! les Compromis,

Les Préjugés, les Lâchetés!...

Que je pactise?

Jamais, jamais! - Ah! te voilà, toi la sotise!

- Je sais bien qu'à la fin vous me mettrez à bas;

N'importe: je me bats! je me bats! je me bats!...

E. Rostand, Cyrano de Bergerac

 

 


O que é um prego no sapato

... Eram preguitos daqueles que se vão manifestando com o uso do calçado, que deitam um dentinho de fora e que vão mordendo devagarinho, moendo o pé e o espírito, ao ponto de romper a meia, deixar uma marca e obrigar a ir ao sapateiro....

Há coisa de sete anos atrás tive uma ideia que lancei a partir da pt-net (uma lista de discussão coordenada pelo INESC, que ainda hoje existe) a que dei o título de “Um prego no sapato”. Pretendia eu, nessa altura, lançar ao público abundante e participativo da pt-net uma sucessão de textos críticos sobre situações nacionais que particularmente exigissem uma crítica persistente, tão incomodativa quanto um prego no sapato. E expliquei que esses textos não teriam a violência do grande prego espetado numa tábua, que inadvertidamente foi pisado, furando a sola e o pé, ao ponto de exigir tratos de emergência e choro. Não. Eram preguitos daqueles que se vão manifestando com o uso do calçado, que deitam um dentinho de fora e que vão mordendo devagarinho, moendo o pé e o espírito, ao ponto de romper a meia, deixar uma marca e obrigar a ir ao sapateiro. Uma martelada certeira e pode ser que tudo passe. Ou talvez não. Se o artista não conseguiu dobrar aquela ponta, quando voltamos a calçar o sapato recomeça o martírio: quase não se sente, depois vem uma pequena impressão, e, finalmente, volta a ser insuportável.

Inspirou-me esta ideia aquilo que Eça de Queirós escreveu na primeira das suas “Farpas”, lançada em Junho de 1871, depois de fazer uma descrição absolutamente desconsolada do que era a sociedade portuguesa de então: “Nós [ele próprio e Ramalho Ortigão] não quisemos ser cúmplices na indiferença universal. E aqui começamos sem azedume e sem cólera, a apontar dia por dia o que poderíamos chamar – o progresso da decadência”. Os autores da série de artigos que se prolongou por longos anos – onde se encontram verdadeiras pérolas de crítica social e política, expressivas do talento invulgar de quem os escreveu – pretendiam a cada golpe da sua pena deixar uma farpa, que ferisse a pele do Portugal do seu tempo, deixando um pedaço de ferro cravado, uma pequena mancha de sangue e, sobretudo, um sinal. Um sinal impossível de esconder e doloroso quanto baste, que não permite esconder a imagem de decadência que foi omnipresente na geração de intelectuais a que pertenceram os dois escritores.

Do exemplo das “Farpas” (que, aliás, já fascinou muitas gerações de jornalistas e escritores que pretenderam seguir o exemplo ou inspirar-se nele) apenas retenho a ideia do pé desastrado que merece aquele prego saliente a moê-lo com pertinácia discreta mas incontornável. Longe de mim a ideia de farpear o Mundo, Portugal ou quem quer que seja, neste início do século XXI. Antes procurarei fazer crescer nalguns sapatinhos o tal prego quase imperceptível, que, a princípio não se sabe bem se foi uma uma pedra ou outra coisa qualquer que para ali entrou inadvertidamente. Vai-se puxando a meia discretamente, dá-se uns pontapés na cadeira para ver se aquilo muda de posição, há sempre uma esperança que assim como veio também vá, mas a sua persistência acaba por ser insuportável. Estarei aqui, portanto, para incomodar, pretendendo apenas ser lógico, racional e humano naquilo que escrevo. Tenho uma enorme fé na capacidade do Homem, parecendo-me que tem vindo a melhorar as suas próprias condições de vida e a racionalizar as suas relações, apesar da popularidade de Maquiavel e do catastrofismo de cada noticiário televisivo. O meu optimismo antropológico tem uns dias melhores do que outros, mas não perco a convicção de que existe verdadeiro progresso social, mesmo quando surgem situações suficientementemente absurdas para retirarem qualquer expressão a esta via positiva. O que nunca conseguirei ser é imparcial, porque estarei todo juntinho, com passado, presente e esperança no futuro, em todos os preguinhos que por aí semear.

Tal como há sete anos atrás, não posso prometer regularidade, nem sequer nas respostas a quem entender questionar-me sobre os assuntos que abordarei. Não sou um profissional da escrita, e, não vou alegar aquela desculpa clássica da “falta de tempo”. Confesso que me falta, essencialmente, capacidade de trabalho, só sendo capaz de escrever quando ocorre uma especial conjugação entre o assunto e alguma inspiração, determinando um estado emocional que me é indispensável à produção do texto. Tenho muita pena de não conseguir escrever dez vezes mais do que aquilo que escrevo (e, sobretudo, de não ter capacidade para estudar todos os assuntos que me interessam), mas não há nada a fazer. Tenho de me conformar com isso.
 

Henrique Jorge